O regresso (Crítica)

“O Regresso (The Revenant) é sem dúvida a mais bela obra de Alejandro González Iñárritu, constituindo-se um exercício de criatividade e talento e um filme pungente e visualmente estarrecedor, culminando numa experiência extremamente sensorial, capaz de prender o espectador e atingi-lo de forma visceral, como raríssimas vezes um drama foi capaz de fazer”. Por Presepada Geek – Yago Pinto.

O toque contemplativo é um elemento delicado de se usar na linguagem cinematográfica. Um erro de cálculo transforma o fascinante em enfadonho, faz do belo cansativo, afasta a plateia e prejudica a catarse e a identificação do espectador. Partindo disso, é gratificante, portanto, constatar que deste mal Alejandro González Iñárritu não sofre.

Escrito pelo diretor, em parceria com Mark L. Smith, com base no livro de Michael Punke, O Regresso (The Revenant) é sem dúvidas a mais bela obra do cineasta, constituindo-se um exercício de criatividade e talento e um filme pungente e visualmente estarrecedor, culminando numa experiência extremamente (extremamente, mesmo) sensorial, capaz de prender o espectador e atingi-lo de forma visceral, como raríssimas vezes um drama (quiçá um de 2h40) foi capaz de fazer.

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Ambientado no século XIX, o filme nos mostra uma América desolada. O genocídio da população indígena e as incursões francesas nos territórios do norte do continente montam o contorno em que a trama se desenrolará, trazendo uma Cia de mercadores de pele embrenhados na natureza em meio ao inverno que floresce implacável (não tão implacável e arrasador quanto à fotografia do gênio Emmanuel Lubezki, de Gravidade e Birdman) e a iminência de se deparar com a fúria das tribos Arikaras que tentam, furiosamente, expulsar os exploradores de suas terras. Durante a viagem de volta, o guia da expedição, Hugh Glass (DiCaprio), é atacado por uma ursa e tem o corpo dilacerado, sendo abandonado por seus companheiros.

Cabeça do elenco (e coração do filme) Leonardo DiCaprio vive Hugh Glass (figura folclórica das lendas de fronteira estadunidenses) de forma contida e intimista, cabendo à câmera de Iñárritu e Lubezki a tarefa de invadir a privacidade do protagonista, trazendo-o quase sempre em enquadramentos fechados e tomadas em zoom, dando ao público todos os contornos de seu rosto. Seu trabalho aqui é intenso, físico e inspirado, já que a estrutura do filme não lhe permite diálogos grandiosos ou momentos cheios de buzz (ele mal fala durante o longa) Leo nos dá um trabalho de expressão corporal como nunca antes lhe foi exigido e poucas vezes foi visto. Atua com os olhos, fala com o corpo e arrebata o público, fazendo-o sentir e temer por seu personagem enquanto este busca, em um misto, sobreviver à adversidade e vingar o filho assassinado pelo mesmo homem que o enterrou vivo. Tom Hardy, por sua vez, (o grande merecedor do Oscar de Melhor Ator Coadjuvante) confere ao algoz Fitzgerald camadas sobre camadas, tirando-lhe o aspecto unidimensional e conferindo força, razões e dramas ao personagem. Que é abordado sempre com uma câmera inquieta buscando se distanciar do personagem, que, de olhos arregalados, postura alerta e sotaque áspero, torna-se uma figura instável. O restante do elenco, que conta com Domhnall Gleeson, Will Poulter, Forrest Goodluck e Lukas Haas, dá cabo de seus papéis com perfeição, conferindo dimensão e matéria à trama e aos totens que cercam Glass.

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Tecnicamente, tudo em O Regresso é impecável: a direção de arte de Jack Fist evoca mistério e desolação (e é sintomático que até mesmo Forte Kiowa surja estéril e hostil), conferindo peso e dramaticidade a tudo que se vê, enquanto a trilha pontual de Ryuichi Sakamoto surge épica e intensa, sendo tocante, em diversos momentos, vê-la casar-se com as ações de DiCaprio e os quadros em foco. Importante notar, também, o trabalho incrível da equipe de maquiagem e figurino do filme, que executam trabalhos igualmente cruciais e necessários para a identificação do espectador com os temas do enredo.

Enquanto estava no palco recebendo seu merecido Oscar de Melhor Diretor por Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância) no ano passado, Iñárritu, o elenco e a equipe de produção de O Regresso passavam por maus bocados. Filmada inteiramente com luz natural (sim, isso mesmo), a produção dispunha de pouco mais de uma hora por dia para rodar nas locações montanhosas e pela taiga canadense coberta de neve. O Regresso é um daqueles filmes feitos na raça, com sangue. Tempestades arruinaram planejamentos, destruíram equipamentos, alteraram cronogramas de filmagem radicalmente (a fotografia principal acabou se estendendo por 9 meses, muito além do planejado, e, com o degelo canadense, correu para  a Patagônia), as cenas (especialmente a sensacional cena de abertura em plano sequencia) eram ensaiadas à exaustão para que tudo pudesse sair perfeito. E saiu. O perfeccionismo de Iñárritu toma conta de cada frame.

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Inspirado nas obras ímpares de Terrence Malick e contando com uma edição paciente e contida (que contém a euforia linguística mesmo durante as brilhantes cenas de ação e de tensão recorrente), Alejandro traz a natureza como componente de sua narrativa e a entrelaça com o enredo como obstáculo e, ao mesmo tempo, força motriz de Glass em sua jornada de sobrevivência e vingança. Uma jornada que ecoa na plateia em todos os seus choques, todos os seus sentimentos e todas as suas dores. Prepare-se para ficar impressionado como cenas violentas, explícitas e desesperadoras.

Em um dos momentos de O Regresso, um personagem diz que “a vingança está nas mãos no Criador”. Dito isso, o reconhecimento do melhor filme de 2015 (que só chegou por aqui esse ano) está nas mãos da Academia, que respondeu entusiasmada ao longa dando-lhe 12 Indicações ao Oscar (9 das quais é merecedor absoluto)  Mas a obra-prima que O Regresso é, felizmente, não depende de uma estatueta dourada.

Alejandro G. Iñárritu
20th Century Fox
Leonardo DiCaprio, Tom Hardy, Domhnall Gleeson.
2h40.

Presepada Geek – Por Yago Pinto

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